Heroes of Olympus
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Desde o resgate de Eirene o mundo nunca mais foi o mesmo, a paz nunca mais reinou soberana como aconteceu por longas eras. Muitos foram aqueles que deram seu sangue e vida para que ela retornasse, mas diante da ingratidão humana, ela escolheu permanecer no esquecimento do Senhor do Olimpo. A tríade nefasta havia sido derrotada era fato, até mesmo por seus próprios filhos, contudo, no fim, o maior objetivo deles havia sido conquistado. Caos podia influenciar uma vez o mundo mortal e também a mente dos olimpianos e romanos. Eirene passou a habitar somente os corações daqueles que realmente acreditavam nela, algo tão raro que nunca mais se ouviu falar da jovem Deusa. Zeus a sua maneira tentou reestabelecer a ordem no Olimpo, mas algo dizia que ainda havia algo bem pior estava por vir. E ele estava completamente certo quanto a isso.Três anos se passaram enquanto as cicatrizes das últimas batalhas enfrentadas pelos semideuses, ainda se fechavam. Amigos, conhecidos, parceiros, parentes... Muitos morreram na guerra que ficou conhecida como a Batalha da Escuridão. Não era fácil recomeçar, mas era necessário e assim todos fizeram. Aos poucos, novos semideuses chegavam, o Acampamento Meio Sangue voltava ao normal e a rotina que já havia sido esquecida, ganhava lugar na vida dos semideuses. Não se ouviu mais falar de grandes ameaças, monstros ou qualquer coisa que de fato perturbasse a harmonia. Tudo parecia ter voltado os trilhos e era assim que a vida seguia. Os que sobreviveram a aqueles dias tão negros, jamais esqueceriam tudo o que aconteceu e carregariam para sempre em sua pele e alma as lembranças daqueles dias tão tenebrosos.Quando o inverno chegou o frio parecia mais intenso, que mesmo contra a vontade do senhor D ele insistia em invadir o acampamento vez ou outra. O Deus e Quíron deliberam por dias, algo que parecia ser uma simples suposição se concretizava de uma maneira incontestável. Uma força tão nefasta que nem mesmo os oráculos eram capazes de descobrir de onde vinha. Foram quando três mensageiros de terras muito distantes chegaram ao acampamento. Eram semideuses e isso era inegável, mas de nenhuma divindade habitual. [...]
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Publicado por Heron Devereaux Qui Set 30 2021, 11:26





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Heron Devereaux
                           
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Publicado por Heron Devereaux Qui Set 30 2021, 11:30

                          
 
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Re: — Devereaux;

Publicado por Heron Devereaux Qui Set 30 2021, 11:33

Genesis:

Já era quase pôr-do-sol. Os raios de luz ziguezagueavam entre os prédios de Manhattan, tingindo de vermelho, laranja e lilás o fim de tarde em Nova York. O Audi A8 preto fez a curva, entrou na Madison Avenue e seguiu em direção a Midtown. No banco da frente, havia um homem de cabelos longos amarrados em um coque que se escondiam embaixo de um chapéu de chofer e que, por si só, já daria uma boa história. Mas é o homem no banco de trás que nos interessa nesse momento. O cavalheiro de cabelos dourados bem penteados, terno cinza bem alinhado e perfume forte, que mantem o olhar perdido em direção à bagunça lá fora.

Heron Devereaux. Um alpinista social. Num intervalo de poucos anos, Heron escalou os prédios comerciais mais perigosos de Manhattan, onde qualquer peixe maior era um predador em potencial. Mas Heron não se intimidou com o cardume. Agora, sentava no topo de um deles, como diretor executivo da Genesis Corp. Ninguém sabe bem como aconteceu. Ninguém sabe explicar direito como o fodido do Devereaux subiu tão rápido uma escalada que talvez nem as próximas gerações dele devessem ser capazes de alcançar. Ainda que as circunstâncias fossem extraordinárias, ninguém negava a capacidade do homem para dirigir os negócios. Heron era como um ímã, e seu campo magnético era quase impossível de se resistir.

Ele se mexeu sobre o banco de couro preto, desconfortável. O cheiro de carro novo na ponta do nariz. O olhar inexpressivo do homem que dirigia o automóvel no espelho retrovisor. Uma orquestra de sirenes tocava sua sinfonia alguns quarteirões longe dali e o som chamou a atenção do filho de Atena. Os dedos batucaram sobre o encosto de braço, na porta do carro. “Nem toda sirene é pra você, Devereaux.”

— Algo errado, senhor Devereaux?

— Heron, Chase. Meu nome é Heron — o homem reclamou, enquanto lançava um olhar de reprovação através do espelho retrovisor. A reação do motorista denunciava que já haviam tido aquela conversa uma centena de vezes. O homem atrás do volante balançou a cabeça devagar e voltou a atenção para o asfalto. — Tudo certo. Não se preocupe. Só quero ir pra casa.

— Sim, sen... — Uma sobrancelha arqueada no rosto de Heron. Os olhos inexpressivos de Chase no retrovisor. Um segundo de hesitação. — Heron.

Seguiram em silêncio, pela Madison Avenue. Chase, focado no trajeto. Heron, perdido numa nuvem de pensamentos que ele não queria ter. Já haviam se passado 7 anos desde que deixou o acampamento Meio-Sangue. Falo com sinceridade quando digo que ele nem pensava mais naquilo. O tempo o distanciou dos deuses, do Olimpo – mesmo que o Empire State Biulding continuasse há 30 minutos de viagem dali – e do acampamento. Uma vez, foi Heron Devereaux, um menino semideus, desajeitado, um desajustado social. Era, desde então, Heron Devereaux, homem distinto, promessa de um futuro brilhante para os negócios em Manhattan e fora dela.

Mas de vez em quando, sentia saudades das coisas que deixou pra trás. Seus pensamentos pairavam em volta de uma menina de cabelos negros e olhos felinos. Pensava nela de vez em quando. Pensava em como as coisas poderiam ter sido diferentes. E aí, dava descarga em todas as lembranças. Estava feliz com o que havia conquistado. Não abriria mão disso por ninguém. Nem mesmo por ela. Nem mesmo por Elsie.

— Heron, senhor... — a voz do rapaz no banco da frente puxou Heron de volta à realidade. O Audi preto interrompeu seu trajeto em frente a um enorme prédio residencial. O concreto cinza subia em direção ao céu, até se perder de vista.

— Obrigado, Chase. Por hoje é só. Boa noite, rapaz. E juízo.

Ele saltou para fora do carro. O ar cheirava a fumaça de cigarro, cachorro-quente e gasolina. Nunca foi um homem do campo. A vida na cidade era para ele. Gostava do caos. Gostava da estranha mistura de cheiros. Manhattan era sua casa, de uma forma que o acampamento ou os outros lugares onde ele esteve nunca conseguiram ser.

Ele atravessou a calçada, acenou com a cabeça para o recepcionista e atravessou um saguão bem iluminado do enorme prédio. Silêncio. Precisava de um pouco de silêncio, depois de um dia agitado no escritório. Atravessou o saguão com uma dezena de passos e entrou no elevador particular. Ele apertou o botão para o único andar disponível, enquanto as portas se fechavam, abafando os barulhos da cidade e o jazz instrumental que tocava no elevador embalou o tal silêncio que Heron andava a procura.

A gravidade se torna mais perceptível do que o comum quando o elevador começa a avançar em direção ao céu. A cabeça de um filho de Atena – a cabeça de Heron – era como a maré. Às vezes, o nível da água decresce e as coisas parecem mais calmas. Os pensamentos se alinham em sua mente e tudo parece fazer mais sentido do que faz para o restante das pessoas. Às vezes, o nível da água se eleva e os pensamentos inundam sua mente. O brainstorm às vezes é bem-vindo. Mas a verdade é que quando a maré sobe o mar se torna capaz de erodir a beira-mar e, da mesma forma, acontece com Heron. Depois de um longo dia tentando gerenciar as consequências de uma maré alta de pensamentos, tudo o que ele precisava era esvaziar uma garrafa de uísque caro pra lavar a mente das ideias, das lembranças e de tudo mais que o corroía.

A noite caiu e as portas se abriram na cobertura de três andares que fica empoleirada no topo do One Madison. A escuridão da sala de estar era quebrada apenas pelas luzes da cidade, que atravessavam as janelas panorâmicas e deixavam o lugar numa penumbra sinistra. O bastante para os olhos de coruja do filho de Athena conseguirem guiá-lo pela escuridão. Silêncio. Ele deixou o elevador e caminhou pela sala, até encontrar uma mesa de canto onde uma bandeja de bebidas repousava. Pegou qualquer uma das garrafas de uísque, porque era impossível errar na escolha. Derramou um pouco da bebida em um copo vazio e colocou a garrafa de volta em seu local de origem. Heron apanhou o copo e bebericou um pouco da bebida. Os pelos em sua nuca se eriçavam. Silêncio. Mas tudo ao seu redor parecia gritar. As coisas pareciam mais fora de ordem do que o normal. Ele descobriu o porquê quando virou o rosto em direção ao restante da sala.

O sofá caro e não tão confortável repousava sobre o tapete que cobria a sala de estar. Na mesa de centro redonda, um copo de uísque que Heron não lembrava de ter bebido. Numa das poltronas opostas às grandes janelas, uma silhueta se desenhava. Um homem escondido nas sombras da cobertura do One Madison. O senhor Devereaux sentiu o sangue escapar de suas extremidades. Sentiu a descarga de adrenalina correr pelo seu corpo numa fração de segundo. O instinto de luta-ou-fuga gritava e ele decidiu lutar. Arremessou o copo de uísque em direção ao homem. Mas a figura desconhecida, mesmo sentada, não teve muita dificuldade em esquivar-se do golpe. O copo espatifou-se perto das janelas e cobriu o chão de madeira com uísque.

Arqueou os joelhos. Impulsionou o corpo. Seu pé direito tomou impulso no braço do sofá e, no instante seguinte, ele saltava sobre a mesa de centro. Pousou sobre a figura escondida nas sombras. O peso dos dois derrubou a poltrona sobre o chão e eles deslizaram alguns centímetros pelo chão. A luz da lua cintilou sobre os olhos do desconhecido. Heron não deu muita atenção a isso. Seu corpo mantinha o oponente contra o chão, enquanto seus punhos martelavam as maçãs do rosto. 1, 2, 3 golpes.

A voz do desconhecido escapava por entre seus dentes. Nos ouvidos do filho de Atena, soava quase como uma gargalhada. Ele levantou os punhos e retribuiu os golpes que Heron desferiu contra ele. 1, 2, 3 golpes. Sem precisar pensar muito, Heron soube que a dor que sentiu foi desproporcional à que causou ao outro. Sentiu o gosto de sangue na boca quando colocou as mãos em volta da cabeça do outro e começou a martelar o piso de madeira com a nuca do homem desconhecido. Por alguns segundos, não houve nenhuma reação. O filho de Atena até chegou a pensar que havia dominado o oponente. Seu pior defeito era que confiava demais em sua própria capacidade.

O homem reagiu. Colocou as mãos sobre o tórax do semideus. Não fez muita força, mas conseguiu repelir Heron. Seu corpo atravessou o espaço da sala de estar e colidiu contra a mesa e as cadeiras da sala de jantar.

Deve ter quebrado algum móvel ou algum pedaço do corpo, porque conseguiu ouvir o som de algo se partindo ao meio. Mas a adrenalina ainda corria por seu corpo. Ele se colocou de pé. Orgulho ferido. Algumas partes do corpo também. Mas seus pés o guiaram em direção ao homem nas sombras. As mãos apertaram a gola da camisa dele. Os olhos do desconhecido cintilaram à luz da lua outra vez.

— Vamos com calma agora. Não pode me ferir. Não desse jeito, pelo menos. Além do mais, parece uma atitude um pouco exagerada, dada a circunstância. — O homem empurrou Heron em direção às janelas, colocando-o contra a parede. As luzes da cidade o banharam. Vestia terno azul-escuro. Os cabelos bem alinhados. Um bigode acima dos lábios, um nariz extravagantemente grande e alguns traços latinos em seu rosto. Ele afastou-se e colocou os olhos sobre a cidade lá em baixo.

— Dada a circunstância? — Todos os sentidos ainda gritavam diante da situação de perigo. Mas o outro homem não parecia disposto a um combate. — O que devo fazer quando encontro um estranho em minha casa?

— Tem razão. Foi um pouco dramático demais. Peço desculpas por isso — resmungou, enquanto tocava as mangas do terno com os dedos, distraído. O som das palavras se enrolava na língua dele e, por vezes, algumas consoantes e vogais se perdiam em seu discurso, porque tinha o sotaque latino. Ainda assim, a maneira como ele falava não atrapalhava a comunicação. Se era para ser justo, era até encantador a forma como ele construía as sentenças. Quanto mais ele falava, menos adrenalina corria no corpo do filho de Atena.

— Como é que chegou aqui? — Quis saber. Quase ninguém tinha acesso ao elevador particular e à cobertura que, como eu disse, ficava empoleirada sobre os mais de 50 andares do One Madison.

— Não costumo pensar sobre isso. — A questão pareceu martelar um pouco na cabeça dele. No meio do pensamento, ele pareceu ter desistido da tarefa. — Eu quis e aconteceu. Você também não devia pensar tanto nisso.

— Quem é você? — Era a pergunta seguinte. Fazia sentido. Era um semideus e coisas estranhas costumavam acontecer. Mas o discurso do homem misterioso em seu apartamento não fazia muito sentido. Precisava de um pouco de contexto.

— Essa é um pouco difícil. Está fazendo as perguntas erradas. Mas se vai te fazer confiar um pouco mais em mim, que seja. Sou o segundo. Somos sete, por enquanto. Sete é um número bom. Acho que numerologia tem alguma coisa a ver com sermos sete, sabe? Sete dias da semana, sete pecados, sete virtudes, sete novos deuses. Eu sou o segundo, então acho que você pode me chama de... — Buscava uma palavra na mente. Um sorriso bonito se formou em seu rosto, antes que ele sussurrasse. — Monday.

— Certo, Monday. — Sabia que aquele não era seu verdadeiro nome. Ainda assim, poder chamá-lo de alguma coisa parecia ter tranquilizado um pouco os nervos do filho de Atena. — Acho que se tivesse a intenção de me machucar, já o teria feito. Porque não se senta e explica melhor as coisas? — sentiu a cabeça latejar e os primeiros sinais de uma cefaleia tensional. Se antes as palavras bonitas do senhor Monday já não faziam sentido, a partir dali fariam muito menos. — Sem enigmas dessa vez. Por favor.

Monday era um homem de negócios. Na verdade, era O Homem de Negócios. Sabia vender uma ideia. Heron era um sujeitinho complicado. Desconfiado – e por que não seria, se isso foi o que o manteve vivo até então? Monday e Heron sentaram juntos numa ponta do grande sofá. Era tudo novidade para Heron. De certa forma, era tudo novidade para o outro também. Ainda assim, ele tomou algum tempo para explicar um pouco de tudo para o semideus.

Eram sete deuses. Sete divindades que surgiram de canto nenhum, mas da necessidade dos seres humanos em cultuarem novos deuses. Eram “novos” porque existiam há muito menos tempo do que os outros deuses. Não pertenciam aos deuses gregos. Não eram uma extensão desse panteão. Eram Os Sete e pertenciam a si mesmos e ao mundo, apenas. Monday era o segundo porque foi o segundo a surgir. A ideia parecia absurda. Mas não havia como negar que havia algo de especial no senhor Monday. As palavras fluíam de sua boca com naturalidade. É aquela sensação que se tem quando um comerciante sabe vender bem o seu produto. Tinha uma energia diferente em volta de si. Algo que Heron nunca havia sentido, mas era exatamente o que ele esperaria sentir vindo de um deus. Monday era como um ímã, mas seu campo magnético era, definitivamente, impossível de se resistir.

— E isso é possível? Não entendo muito bem como deuses podem surgir espontaneamente. — Não era como se não confiasse no deus. Mas tinha a curiosidade de saber como as coisas haviam acontecido.

— Não quero discutir muito sobre isso. — Monday virou o rosto em direção às janelas e Heron soube que havia feito mais uma das perguntas erradas. Monday conseguia transpirar desapontamento sem dar nenhum sinal disso. O pior é que Heron se sentia compelido a não decepcioná-lo por motivo nenhum. — A verdade, e me perdoe por isso, é que isso não é da sua conta. Mas os deuses estão diretamente ligados aos mortais e suas crenças. Não vamos nos perder muito nesse assunto. Que tal irmos ao que interessa?

— Certo. Estava pensando nisso também. — Heron franziu o cenho, pensando na pergunta. Inclinou-se em direção ao homem. Uma demonstração de ansiedade que, em outras ocasiões, ele teria reprimido. — Senhor Monday, o que quer de mim?

Quando desembaralhou um pouco as cartas na mente do filho de Athena, Monday decidiu partir em direção ao motivo pelo qual estava ali. Era hora de vender o produto. Precisava fechar um contrato com o senhor Devereaux. É verdade que a oferta era irrecusável. Monday oferecia a benção de sete deuses, quando Heron não tinha nenhuma. Sua vida estava prestes a tomar um rumo muito melhor do que ele havia planejado até então. Mas havia um porém, é claro. O deus explicou que uma trama estava prestes a se desenrolar. Os sete deuses elegeram um campeão que lutaria por eles. Um herói que trataria de encaminhar os eventos seguintes na direção certa. Heron era um vento forte e os sete deuses queriam surfar nessa brisa, como uma folha. Cabia ao vento guiar a folha para o melhor caminho.

— Que tipo de eventos? — Quis saber, porque fazia sentido perguntar. Mas Monday era muito vago. Usava as palavras de forma bastante moderada. Heron sabia que não conseguiria uma resposta para aquela pergunta.

— Isso também não é da sua conta. Pelo menos por enquanto — respondeu, franzindo os lábios. Media suas palavras sempre que possível. Mas, de vez em quando, tratava de colocar Heron de volta em seu devido lugar. Era um deus. Era orgulhoso. Todos eles são. — Os eventos são apenas as peças de dominó. Estamos interessados é no efeito que eles causarão.

— E que efeito seria esse, senhor Monday?

O sorriso no rosto de Monday era o mesmo que Heron via todos os dias no espelho. O deus sabia que aquele negócio estava prestes a se tornar concreto. As palavras a seguir tratariam de garantir isso.

— Quando todas as peças caírem, o que resta dos deuses antigos vai se perder junto com as civilizações que os cultuavam. No futuro, senhor Devereaux, só há espaço para sete. Só há espaço para Os Sete.

Monday puxou uma maleta escondida debaixo da mesa de centro, enquanto as palavras dele reverberavam na mente do filho de Atena. Uma vez foi acolhido pelo chalé de Hermes quando nem mesmo seu pai o queria. Sentou na mesa do deus e comungou com seus filhos. Mas isso foi há muito tempo atrás, e esses eram méritos de seus filhos – não dos deuses. A verdade é que os deuses nunca sorriram para Heron. E se os novos deuses estavam dispostos a jogar o álcool sobre os deuses antigos, Heron fazia questões de acender o fósforo e atear fogo em tudo o que representavam. Monday colocou a maleta sobre a mesinha, abriu e puxou para fora um documento e uma caneta. Heron franziu o cenho por um instante.

— Achei que era uma metáfora. Quer que eu assine um contrato mesmo?

— É como as coisas funcionam comigo. Sou um homem de negócios. Um contrato vale mais do que a sua palavra. — Ele colocou o documento sobre a mesinha e estendeu a caneta na sua direção.

— Acho que eu devia ler isso primeiro — decidiu. Suas palavras desenharam um sorriso no rosto do deus.

— É uma sabia decisão. Mas preciso que você dê um salto de fé. Se vamos fazer isso, preciso que confie em mim. Preciso que confie em nós, assim como confiamos em você. Pode assinar agora. Podemos discutir as clausuras mais tarde. Prometo ser bem flexível nesse sentido. — A caneta avançou um pouco mais na direção do semideus.

Duvidava bastante que aquele contrato tivesse algum valor jurídico. As palavras do deus faziam tudo soar mais como um teste do que um verdadeiro ato contratual. Heron hesitou por um instante. Há muito tempo, deu as costas para os deuses e suas vontades. Naquele momento, estava prestes a se submeter à vontade de sete deles. A maré subia em sua mente e os pensamentos erodiam a beira-mar. Queria ter mais tempo para pensar naquilo tudo. Mas Monday tinha pressa.

— Imagino que saiba que sou filho de Atena com um mortal. Parte de mim pertence a esses deuses antigos. — Odiou as palavras que saíram de sua boca, porque odiava pertencer a eles.

— Isso não é totalmente verdade. — O deus pareceu desconfortável. Se mexeu sobre o sofá. Se fosse um homem comum, teria suado um pouco. Mas não era. — Sabemos de sua condição, senhor Devereaux. Mas as coisas não são como o senhor pensa que são. É mais nosso do que é deles.

Os olhos do semideus encontraram a caneta, ainda estendida em sua direção. Queria argumentar contra o que Monday dizia. Não queria pertencer a ninguém. Pertencia a si e a nenhuma outra pessoa. Havia sido assim por bastante tempo. Mas a dor de cabeça martelava as ideias como pregos em sua mente. Ele suspirou. No fim das contas, era apenas um semideus. Se um deus havia descido até a altura de sua cobertura, não podia dar as costas às coisas que ele tinha para lhe dizer.

Apanhou a caneta. O polegar tocou o botão na extremidade, revelando a ponta. Ela deslizou sobre o papel branco, desenhando o nome do semideus em tinta azul-escuro. Heron Devereaux. Entregue aos deuses para que fizessem dele o que bem entendessem.

— É isso?

— É isso. — Monday tocou o ombro do rapaz, apertando-o de leve. A maré diminuiu em sua mente. Os pregos que a cefaleia martelava se enferrujaram, apodreceram e desapareceram. E aí, as ideias se alinharam. De alguma forma, ele sabia que isso tinha a ver com o deus.

Monday empurrou o contrato para dentro da maleta e puxou para fora uma segunda via, que ele deixou sobre a mesa de centro. Fechou sua maleta, colocou-se de pé e atravessou a sala de estar em direção ao elevador privativo. Virou o rosto em direção ao senhor Devereaux uma última vez, antes de entrar no elevador.

— Foi ótimo fechar negócio com você, senhor Devereaux. Desculpe pela... Bagunça. Vou entrar em contato quando estiver pronto. — Tantas perguntas por fazer. Agora que os pensamentos se organizavam, queria saber mais sobre tudo, porque percebia que ainda não sabia de quase nada. Mas as portas do elevador se fecharam e o latino de terno e sorriso encantador sumiu de sua vista.

Heron olhou em volta e ele percebeu que ainda estava imerso na escuridão. Não queria viver no escuro para sempre. Estava pronto para deixar a luz dos sete brilhar sobre ele.
                          
 
Heron Devereaux
                           
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Re: — Devereaux;

Publicado por Heron Devereaux Qui Set 30 2021, 11:34

Getaway car:

Espera. Eu acho que comecei errado. Mas, para ser sincero, essa história não tem começo, meio e fim. Peço desculpas por isso. É que, às vezes, as histórias aparecem para mim em fragmentos e eu vou contando o que faz mais sentido no momento. Enfim. Neste momento, acho que é importante esclarecer algumas coisas. Preencher algumas lacunas do passado. De forma resumida, eis aqui o histórico de passagem de Heron Devereaux pelo acampamento Meio-Sangue.

22 de setembro de 2010

Heron encostou a cabeça no vidro do Impala 1967 preto. Os olhos voltados para a estrada e para a vegetação à beira dela. Os cabelos dourados, um pouco longos demais, caíam sobre o rosto e bloqueavam parte da visão. Naquela época, pouca coisa fazia sentido. Normal. Pouca coisa faz sentido durante a adolescência. Mas as coisas que saíam da boca de seu pai, Oliver, eram palavras importadas da Ilíada e da Odisseia. Naquele momento, soavam como uma desculpa mal planejada. Uma forma de se livrar de um filho que ele nunca teve a intenção de criar.

— Sei que as coisas parecem confusas agora, mas o melhor é que você fique junto dos seus, por enquanto — disse o homem. O carro cheirava a pizza velha, gasolina e a Oliver, o velho fedorento atrás do volante. As palavras incomodaram Heron. Ele franziu a sobrancelha, mas se recusou a olhar nos olhos do pai.

— Dos seus? — Repetiu, em tom de deboche. Mordeu a língua, porque tinha prometido a si mesmo que não diria nada durante a viagem. Já era humilhação demais ser abandonado pelo próprio pai. Seu ego não sobreviveria se tivesse que implorar por piedade enquanto isso acontecia.

— Não sei bem o que responder. Ela disse que haveria um lugar pra você. Imagino que te deixar com alguma coisa seja melhor do que te deixar sem nada — comentou. As palavras saíam tão naturalmente de sua boca. Falava sobre abandonar o filho como quem falava sobre o clima ou sobre a partida de futebol de domingo.

Para Heron, nenhuma das opções parecia justa. Manteve-se calado, porque temia o rumo que a conversa parecia tomar. De tudo, o pior eram as histórias sobre sua mãe. A ideia de que uma deusa havia descido do Olimpo para se relacionar romanticamente com um fracassado como o pai já era absurda demais. Mas a ideia de que deuses e deusas venerados na Grécia antiga eram reais fazia com o que o menino temesse pela sanidade mental de Oliver.

O velho nunca foi muito bom da cabeça, na verdade. Oliver era um criminoso, um ladrão e um vigarista. Ganhava a vida às custas do trabalho dos outros. Para Heron, isso nunca havia sido um problema. Era a única vida que ele conhecia. Aprendeu a bater carteira, enganar desavisados às portas das casas de penhores, trapacear no truco, nos dados e nas rinhas. Se para o resto do mundo isso parecia abominável, para Heron era apenas sobrevivência. Mas Oliver era um homem violento, descontava as frustrações de uma vida inteira na primeira coisa que encontrasse pela frente. Geralmente, Heron era essa coisa. O relacionamento dos dois era um ciclo, e Oliver oscilava entre os dois extremos entre o melhor pai do mundo e o pior ser humano da Terra.

Mas as coisas estavam prestes a mudar e nada disso importava mais. Heron quase deixou um sorriso aparecer em seu rosto, enquanto pensava consigo mesmo. É que sabia que Oliver era o tipo de pessoa na qual não podia se confiar. Devia ter previsto que algo assim acabaria acontecendo. Afinal, já o conhecia há 13 anos.

— Sei que não entende agora, mas vai me agradecer por isso. Se vier comigo, vai acabar preso ou morto. Vai ficar melhor sem mim.

Não dava para negar que o que ele dizia fazia sentido. Mas suas intenções não tinham nada de altruístas e o discurso acabava perdendo um pouco da força. Heron pensou em um milhão de coisas que poderia dizer. Não disse. Ia parecer desesperado. Recusava-se a dar o braço a torcer. Sentia-se traído, mas, de jeito nenhum, ia sair por baixo nessa. Não precisava do pai. Nunca precisou.

Só o motor do carro quebrava o silêncio, enquanto eles avançavam pelas curvas da estrada. Os sinais da civilização ficaram para trás enquanto o relevo natural de Long Island tomava conta da paisagem. Heron pensou na mãe que nunca conheceu. A mesma que o abandonou com o homem que estava prestes a empurrá-lo para fora do carro numa ilha que Heron não conhecia. Descobriu prazer em passar o resto da viagem odiando-a.

De repente, uma freada brusca. Oliver puxou um mapa velho da parte de trás do carro e examinou as informações contidas nele. Heron desencostou a cabeça do vidro. Nada lá fora, além da estrada, da vegetação e de uma colina que se estendia para longe do campo de visão do garoto.

— Acho que é aqui — declarou, com um grama de incerteza na voz.

— Não tem nada aqui. — Heron teve que dizer o óbvio. O sangue já lhe subia para o rosto. O velho realmente pretendia abandoná-lo num pedaço de lugar nenhum.

O menino puxou sua mochila da parte de trás do carro e destravou a porta. Saiu do carro, antes que explodisse de raiva.

— Foda-se. Eu me viro.

Deu as costas e começou a subir a colina. Não sabia bem o que estava fazendo, mas não queria ficar ali mais nem um segundo.

— Sem despedida? — Perguntou o homem, ainda atrás do volante.

Não sei dizer se Heron não ouviu ou não quis ouvir. Posso dizer, no entanto, que ele não fazia questão de dizer tchau. De repente, já havia subido metade da colina, usando ódio como combustível. No topo, talvez avistasse alguma casa, chalé ou estabelecimento comercial perto dali, onde poderia pedir ajuda. Ouviu o som do motor enquanto o carro dava meia-volta e partia. Não chorou, porque, no fim das contas, era um adolescente. Admitir a derrota seria um golpe muito forte para o seu orgulho inflamado. Mas sentiu que tinha deixado no carro uma parte importante de sua vida. De alguma forma, sentia que nunca mais veria o Impala 1967 preto. Muito menos o homem de olhos azuis e cabelos oleosos que o dirigia.

Seus pés tocaram o topo da colina Meio-Sangue e o menino avistou o acampamento que se estendia do outro lado da colina, até onde a terra se transformava em mar. Os pelos de seus braços se eriçaram, e o frio na barriga quase o fez recuar. Teve medo. As coisas estavam prestes a mudar. Não tinha certeza se mudariam para melhor.

22 de setembro de 2010

— É meio bagunçado e superlotado... Mas é o nosso lar — disse Elsie, uma menina baixinha de cabelos e olhos castanhos. As palavras dela flutuavam na mente de Heron, mas lhe fugiam à compreensão. Pouco antes daquele momento, ele fora recepcionado por Quíron. Não fosse pela metade equina, a conversa teria corrido melhor. Mas, de qualquer forma, se ele não tivesse visto com seus próprios olhos, talvez nunca acreditasse que toda a história sobre deuses, semideuses e humanos fosse verdadeira.

Elsie havia sido encarregada de mostrar o chalé onde Heron ficaria, até que decidissem para onde deveria ir. A menina interrompeu sua caminhada em frente à porta do chalé de número 11. Uma mão posta sobre a maçaneta da porta de madeira. Seus olhos se voltaram para o menino.

— Como disse que se chamava mesmo? — Quis saber.

— Eu... — Sussurrou, enquanto tentava livrar sua mente da visão do homem-cavalo. Franziu o cenho. — Eu não disse. Heron Devereaux. — As palavras soaram estranhas saindo de sua boca.

— Oui, oui, monsieur Devereaux. Esse é o chalé de Hermes. Você vai dividir ele comigo e com... — O olhar da menina ficou distante e ela começou a contar nos dedos. Deve ter desistido no meio do processo. — Muita gente.

— Isso quer dizer que Hermes e o meu pai... — Vários gestos com a mão foram feitos. Nenhum que eu queira descrever. — E eles tiveram um filho? Isso é mesmo possível?

— Boa pergunta. — Os olhos da menina brilhavam, enquanto ela se divertia em imaginar as respostas. — Mas não foi bem assim, eu acho. O chalé abriga tanto os filhos de Hermes quanto os que ainda não fizeram o teste de paternidade. Mas isso fica pra depois. Por enquanto, vem conhecer o chalé.

A menina abriu a porta e revelou um grande espaço preenchido por beliches e colchonetes, onde crianças e adolescentes de todas as cores, idades e etnias possíveis se amontoavam. Heron mordeu o lábio, impedindo a si mesmo de expressar qualquer reação àquilo. O chalé 11 era exatamente como um depósito. O acampamento acumulava crianças ali, até que elas criassem poeira ou que decidissem o que deveriam fazer com elas. Pelo menos, foi isso que Heron pensou e foi assim que se sentiu, enquanto atravessava a entrada do chalé.

Elsie saltitava pelos colchonetes, graciosa, enquanto Heron tentava desajeitadamente não esbarrar em ninguém. Caminharam por algum tempo, até Elsie se jogar em um dos beliches.

— As camas são para os filhos de Hermes. — Com um dos dedos, apontou para si mesma. — Você pode ficar com um dos colchonetes — continuou, passando os olhos pelo chão, até colocá-los sobre um colchonete à beira de sua cama. — Pode ficar nesse aqui, se quiser. Fica mais fácil de roubar suas coisas quando estiver dormindo.

— Como é que é?

— Quê?

— Que foi que você disse? No final...

— Não disse nadinha. Coitadinho, a subida até o topo da colina deve ter exigido muito dele. Tá imaginando coisas. Talvez seja melhor se deitar um pouco, monsieur Devereaux. — Um sorrisinho no rosto.

Heron tirou a mochila das costas e a jogou sobre o colchonete. Talvez precisasse mesmo descansar um pouco.

— Tem certeza de que não tem ninguém usando esse colchonete? — Perguntou. Os olhos fixos no colchão e na mochila. Se tirasse os olhos dela, temia nunca mais vê-la.

— Não.

— Não?

— Não. Mas ninguém se importa — respondeu, balançando os ombros. — Achado não é roubado. Não tem ninguém usando agora, né? Não se preocupe. Tem colchonete pra todo mundo.

Não tinha certeza se concordava com aquilo. Viveu como um ladrão durante todos os seus 13 anos. Mas mesmo os ladrões tinham um código de honra entre si. Ladrão que rouba ladrão, definitivamente, não tem 100 anos de perdão. De qualquer jeito, as coisas estavam diferentes agora e, de repente, o cansaço da viagem até Long Island parecia pesar em seu corpo. Não teve muita opção, além de se deitar sobre a fina camada de espuma do colchonete que o separava do chão.

Os braços se fecharam em volta da mochila, enquanto os olhos fitavam o teto. Aos poucos, as outras crianças no chalé começaram a se agitar, sacudindo a poeira do armazém de semideuses indefinidos de seus corpos. É que pelas poucas janelas que traziam luz para o lugar, dava para ver o sol começar a se esconder nas colinas e montanhas mais distantes. Elsie suspirou, logo antes de colocar a cabeça para fora de sua cama. O rosto bem próximo ao de Heron.

— É isso, eu acho. O fim do passeio pelo chalé 11. — Deu um salto, desceu da cama e começou a chutar um dos tênis do menino com a ponta dos seus. — Tá quase na hora do jantar e as coisas sempre acabam bem engraçadas na nossa mesa.

— Imagino. — Heron sorriu e percebeu que não tinha feito isso desde que fora abandonado à beira da colina Meio-Sangue. — Mas não sei se consigo levantar, agora que estou deitado.

Elsie fez uma careta.

— Ok. Se mudar de ideia... — Pensou por um instante. — Pensando melhor, não mude de ideia. É fácil se perder quando você não conhece bem o acampamento. — A menina começou a atravessar o chalé, esquivando-se dos colchonetes em direção à porta. — Nos vemos mais tarde. Ou amanhã.

Elsie desapareceu porta afora, junto com os outros filhos de Hermes e indeterminados. De repente, o lugar nem parecia mais o mesmo. O burburinho constante que tomava conta do chalé deu espaço para o silêncio. Heron abraçou sua mochila com mais força. As coisas não estavam tão ruins quanto ele achava que ficariam. Ainda assim, não estavam tão boas quanto poderiam ser. Sentiu as pálpebras caírem pesadas sobre seus olhos. Precisava dormir até digerir tudo o que havia acontecido.

Quando se entregou aos cuidados de Morfeu, Heron sonhou com máquinas do tempo, vingança e deuses greco-americanos.

26 de setembro de 2013

Heron apressou o passo para se juntar à manada de filhos de Hermes e indefinidos que se movia em direção ao pavilhão. Elsie era baixinha, mas nunca passava despercebida. Mesmo numa multidão de semideuses tão parecidos uns com os outros, conseguia se destacar. Ele se juntou a ela. Os dois trocaram socos nos ombros. Eram quase como irmãos. Três anos no chalé 11 lhe renderam o título de filho de Hermes honorário e um cantinho no coração de pedra da pequena Elsie. Heron não pensava mais tanto naquilo, mas a verdade é que as coisas estavam tão boas quanto poderiam ser.

O chalé 11 era como uma guilda de ladrões. Não eram criminosos de verdade, mas tinham construído uma reputação em cima daquilo. Depois de ter vivido toda a sua vida como um criminoso, Heron não poderia se sentir mais a vontade do que no chalé de Hermes, onde ninguém poderia julgá-lo por isso. Na verdade, ainda não tinha certeza de que não era filho de Hermes (e ainda não sabia se isso era realmente possível). Durante um bom tempo, o fato de não ser reclamado o incomodou bastante. Era como ser rejeitado uma, duas, três, várias vezes mais. O tempo todo, sentia-se como se estivesse outra vez à beira da colina Meio-Sangue, quando viu o Impala 1967 e seu pai pela última vez. Mas as feridas sararam, o ego se recuperou e os problemas foram se tornando cada vez menos importantes, até caberem num espaço da mente que Heron nunca visitava. E, então, tudo estava bem.

Mais ou menos.

Quando chegaram à mesa de Hermes, o sol já se escondia entre as colunas gregas e as colinas. Heron apanhou um prato e começou a enchê-lo com dois grandes pedaços de frango ao molho de maçã e algumas das fatias de maçã que decoravam o prato. Serviu-se ainda de alguns pedaços de batata assada e, finalmente, um punhado de talharim à carbonara que ainda fumegava e que não poderia ser ignorado. Quando achou que devia deixar um pouco de comida para o restante do chalé 11, o rapaz abandonou a mesa e se aproximou da fogueira que brilhava num alaranjado intenso, iluminando todo o pavilhão do refeitório e um pouco mais.

Com o garfo, empurrou um dos pedaços de frango para as chamas. “Hermes”, pensou, porque se sentia mal por morar em sua casa e viver tão bem quanto seus filhos sem pagar nada por isso. Por isso mesmo, fechou os olhos, fez uma prece em agradecimento ao deus e voltou para a mesa de seu chalé.

Viu Elsie sentada no lado oposto, quando ele colocou o primeiro pedaço de maçã embebida em calda na boca. As luzes alaranjadas da fogueira deram espaço a uma luz mais amarelada, quando o burburinho na mesa de Hermes começou a diminuir. Heron ainda engolia o pedaço de maçã, quando se deu conta da quantidade de olhares que se voltavam para ele. Não. Não se voltavam para ele exatamente. Os olhares pareciam mais interessados em algo que acontecia logo acima de sua cabeça.

Heron viu Elsie, do outro lado da mesa, franzir o cenho.

— O que foi? — Mas a resposta demorou demais.

Ele pegou um prato vazio sobre a mesa e usou o reflexo do metal como espelho. Sobre sua cabeça, um desenho pairava. Parecia um...

— Pombo? — Em retrospecto, percebo agora que o menino não era muito esperto nessa época. — Que é que significa esse pombo?

— Não é um pombo, seu ignorante. — Elsie parecia ter reencontrado a voz.

— É uma coruja. — Uma voz masculina atrás dele respondeu. Heron girou no banco e encontrou um loiro sorridente com o olhar fixo nele. — Seja bem-vindo ao chalé 6.

Uma salva de palmas e gritos partiu da mesa de Atena. E foi assim. Não teve voz ou opinião sobre o assunto. De repente, era um filho de Atena e não podia fazer nada para mudar isso.

— Aurelius Wiehrgraf.

— Quê? — Heron respondeu, afastando-se de seus devaneios.

— Meu nome. Wiehrgraf. — Ele estendeu uma mão na direção do menino. Tinha uma voz melodiosa, quase doce. Heron agradeceu por não ser diabético.

Ele se levantou e apertou a mão do rapaz, ainda sem muita certeza das coisas que aconteciam. Respirou fundo. Oxigênio lhe faria bem. Precisava lembrar de continuar respirando.

— Heron Devereaux.

— Eu sei — respondeu Aurelius, com tanta certeza que o outro não teve como duvidar. — Você parece ter passado um bom tempo no purgatório, né?

Só foi preciso alguns segundos até que Heron entendesse o que o líder de Atena queria dizer. Involuntariamente, ele voltou o olhar para a mesa de Hermes. Queria não ter feito isso. Assim, o restante dos indefinidos e os filhos de Hermes teriam continuado alheios às ofensas.

— Como é que é? — Uma nota de incredulidade na voz do garoto.

— Não se preocupe mais com isso. Somos mais civilizados na mesa 6. — Um sorriso branco e muito bem alinhado serviu de pausa entre uma sentença e outra. — Venha se juntar aos seus.

— Aos seus? — Péssimas lembranças bombardearam a mente do rapaz. — Obrigado... — O estômago se contorcia, se revirava, dava uma cambalhota e voltava a se embrulhar. — Acho que não estou com fome.

— Ah... Ok. — Tão doce que a decepção na voz era quase imperceptível. — Por que não vai buscar suas coisas e nos encontramos no chalé 6? Vou te mostrar o lugar.

— Ótimo. — No meio da resposta, já virava o corpo em direção à mesa de Hermes.

Esperava ver alguma coisa no olhar de Elsie. Nada. A menina mantinha os olhos fixos na sopa de legumes à frente dela. Nenhum movimento brusco. Queria evitar o contato visual, porque era isso que sempre fazia em situações de conflito. Heron abriu a boca. Pensou em dizer alguma coisa. Mas o que se dizia numa situação daquelas?

Não pensou muito sobre isso. No instante seguinte, caminhava em direção aos chalés. As chamas da fogueira brilharam até certo ponto. De repente, tudo era escuridão.

No escuro, os sentimentos pareciam ganhar mais cor. Estava furioso, mas ainda não tinha certeza do porquê. Estava triste, porque as coisas estavam prestes a mudar outra vez. Viveu no chalé 11 por três anos. Era quase um filho de Hermes por associação. A ideia o fez sorrir por um instante, mas a raiva se sobrepôs a tudo. Três anos... Três anos esperando uma resposta dos deuses. Três anos convivendo com o silêncio deles. De repente, numa quinta-feira à noite, Atena decide que, finalmente, deveria reclamá-lo como propriedade dela.

As ideias não se encaixavam umas nas outras. As palavras de Aurelius Wiehrgraf giravam em sua mente e ele sentia que se pensasse um pouco mais nelas teria que vomitar qualquer coisa que ainda tivesse no estômago.

Apressou o passo. Uma parte dele queria saber quais eram as intenções de Atena. Outra parte, não dava a mínima importância. Uma terceira, menos volumosa, ria e se divertia com tudo, porque sabia que não havia intenção nenhuma nas ações de Atena. “Ela só esqueceu um dos filhos no chalé 11”, dizia aquela parte, “acontece com bastante frequência, na verdade.”

O chalé de Hermes apareceu, iluminado pela luz da lua. Ele adentrou o lugar. Apanhou sua mochila com metade do conteúdo que carregava quando chegou ao acampamento. As coisas pareciam criar pernas no chalé 11. Heron pensou por um segundo. Parece não ter tido muito sucesso na tarefa, porque, no instante seguinte, abriu a porta do chalé. Não se dirigiu ao chalé 6. Também não tinha interesse na luz alaranjada que cintilava no caminho em direção ao refeitório.

Passou bastante tempo sob as rédeas do acampamento. Quando os pés tocaram a colina Meio-Sangue, ele sentiu um frio na espinha. Estava fazendo a coisa certa? Quando deu o primeiro passo, ainda não tinha certeza da resposta. Mas sabia que não poderia continuar a viver no chalé 11, sabia que não queria fazer parte de um grupo que tinha Aurelius Wiehrgraf como monitor e sabia que estava furioso demais com os deuses para continuar vivendo debaixo dos tetos deles. Continuou a subir a colina. O estômago roncou e ele percebeu que não comia nada desde almoço. Balançou a cabeça, deixando o pensamento de lado. Usaria o ódio como combustível. Era muito bom nisso.
                          
 
Heron Devereaux
                           
Necromantes de Érebo
                         
                           
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Re: — Devereaux;

Publicado por Heron Devereaux Qui Set 30 2021, 11:36

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Silêncio. O vento batia no topo das árvores, e suas folhas farfalhavam, quebrando um pouco a quietude do lugar. Heron cruzou os braços atrás da cabeça e deixou o corpo cair sobre a grama. Já era tarde da noite, quando Elsie o arrancou do chalé de Hermes para uma corrida suicida até o topo da colina. Ela deitou junto dele. Suas cabeças tocando uma à outra.

— Eu nunca tinha visto tantas estrelas — ele sussurrou.

— Imagino. É coisa de gente da cidade. As luzes artificiais ofuscam a luz das estrelas. — Tudo quieto por um instante, enquanto eles observavam os pontos luminosos no céu cor-de-piche. — No que você tá pensando?

— Numa metáfora. Sobre estrelas ofuscadas e luzes artificiais.

Outro silêncio, quebrado apenas pelos batimentos acelerados do coração do menino. Elsie suspirou.

— Às vezes eu olho pras estrelas e me pergunto se você ainda pensa em mim?

×××

Madrugada. Seus olhos se abriram e o sonho se dissipou. Ele esticou o corpo, de volta ao seu quarto na cobertura do One Madison. Apenas as luzes da cidade, vindas das paredes de vidro, iluminavam o quarto e o deixavam numa penumbra sinistra. A mão esquerda do homem alcançou a cabeceira da cama e ele golpeou a mesma, para aplacar um pouco a frustração.

— Merda! — Fazia algumas semanas que não sonhava com Elsie. Talvez esse fosse um recorde.

Ele virou o corpo para o outro lado da cama e viu uma silhueta que preenchia a outra metade. Um sorriso se formou embaixo do bigode, iluminado pela luz fraca. Heron viu os olhos do outro homem, pouco antes de ouvir sua voz.

— Pesadelo?

Monday tinha a voz rouca, quase aconchegante. Naquele momento, não importava. Heron recuou, assustado. Sentiu o corpo escapar pela beirada da cama e cair sobre o chão de concreto. Levou meio segundo para reconhecer o deus e recuperar o fôlego.

— Filho da puta! — Heron passou os dedos pelos cabelos. Respirava fundo. — Onde esteve? — Já fazia mais de um mês que havia conhecido o deus. Desde então, nenhum novo contato, nenhuma explicação, nenhuma consequência. Nada.

O semideus se levantou. Não vestia nada além da bermuda de moletom com a qual sempre dormia.

— Volta pra cama. Tenho um trabalho pra você. — Seus olhos brilharam de um jeito diferente na penumbra do quarto. Tinha um sorrisinho nos lábios que irritava o semideus.

Heron prendeu a respiração, quando começou a subir sobre a cama. Um joelho após o outro. Era involuntário. Seu corpo se mexia contra sua vontade. Impelido a obedecer a ordem. Não era desejo, nem amor, nem subserviência. Era algo mais. Era o mesmo sentimento que levava um político a aceitar entrar num esquema de lavagem de dinheiro, ou o mesmo sentimento que te levava a pegar uma nota de um dólar caída no meio-fio coberto de neve, ou, nesse caso, o mesmo sentimento que levava uma prostituta a deitar na cama com um desconhecido.

— Me fez assinar um contrato por isso? — Ele resmungou, rangendo os dentes.

— Ir pra cama com uma divindade é uma benção. Qualquer um ficaria muito agradecido. Você não?

Balançou a cabeça, meio contra vontade. Não é que fosse feio, o deus. Era bastante atraente, na verdade. Tinha mais a ver com o jogo de poder. Heron era orgulhoso. O livre arbítrio era algo que ele valorizava bastante em si mesmo. Não estava nem um pouco disposto a abrir mão dele.

— Eu sei, eu sei... É difícil. Fica tranquilo, eu não vou te morder.

Heron arrastou o corpo pelos lençóis sobre a cama, encostou em Monday e repousou a cabeça em seu ombro. O deus suspirou, satisfeito, enquanto colava sua cabeça na do semideus.

— Ouça, como eu ia dizendo, tenho um trabalho pra você. Um que não envolve várias horas de prazer inigualável. — Houve uma pausa. Heron continuou aninhado no deus, a contragosto. — É hora de reunir os outros. Sabe? Os sete. As coisas estão andando bem rápido. — O rosto do deus não estava no campo de visão do semideus, mas ele pôde sentir um sorriso se formar nele. — Preciso que vá buscar — ele parou e pensou por um instante — Saturday, o sétimo.

— Saturday? — O nome combinava com o dele, Monday. Uma brincadeira que o deus havia inventado na última vez que se encontraram. Um dia da semana para cada um dos sete deuses.

— Isso. O sétimo. O último. O homem do futuro. O astronauta. A personificação do futuro e tudo o que nos aguarda. É o incerto, é tudo o que o ser humano quer, mas nunca o que o ser humano precisa. — Monday suspirou, enquanto pensava em suas próprias palavras. — Preciso que vá buscá-lo pra mim.

— E o que mais?

— Nada. Só isso, por enquanto. Eu mesmo faria, mas tenho outros deuses pra reunir.

— E onde eu encontro esse deus do futuro?

— Hum... Não se preocupe, vou dar um jeito de te fazer chegar até ele. Só preciso que você dê um toque nele. Às vezes ele se perde nos pensamentos lá em cima. — Heron franziu o cenho, mas não esperou por uma explicação. — Está pronto?

— Agora? — Heron olhou para si mesmo e para os trajes inadequados.

— É claro.

— Ah... Ok.

— Ótimo. — O deus puxou uma moeda do bolso de seu casaco. — Segura. — Sussurrou, antes de jogar a moeda para o alto. — Boa sorte.

A moeda caiu e Heron esticou a mão para apanhá-la. Quando o metal tocou sua pele, o quarto se desfez numa mancha de completa escuridão. Sentiu seu corpo se desmanchar em centenas de milhões de pedacinhos, apenas para se unirem de volta. No instante seguinte, já não estava mais na cobertura do One Madison.

×××

A primeira coisa que sentiu foi o estômago se revirar e o suco gástrico ameaçar subir pelo esôfago. Respirou fundo e prendeu a respiração, tentando impedir isso. Foi aí que percebeu que seu corpo flutuava alguns centímetros acima do chão. Ou seria aquilo uma parede? Não soube discernir. A sala era cilíndrica e se estendia até uma escotilha fechada. Cobriu o rosto com uma mão. A luz ambiente incomodava seus olhos e as luzes de alerta amarelas que brilhavam nos cantos do corredor também não ajudavam.

Ele respirou fundo outra vez, em busca de uma resposta lógica para o motivo de estar flutuando no centro da sala. Esticou um dos pés contra uma das paredes e fez um leve impulso. Seu corpo atravessou a sala, num mergulho desengonçado, até se chocar com a parede do outro lado. Viu uma janela próxima à escotilha e impulsionou o corpo outra vez. Ele se agarrou a uma barra próxima à janela, antes de colidir com ela. Viu o escuro lá fora. Um universo cor-de-piche onde se emoldurava a Terra. Lá de cima, conseguia ver as Américas e o oceano Atlântico. Viu um acúmulo de nuvens que se formava no terço inferior do Brasil, indicando tempestade. Estava em órbita. Há mais de 300 quilômetros de terra firme. A ideia fez seu coração acelerar, suas respirações aumentarem e seu estômago se revirar outra vez. Pôs as duas mãos na barra em que se apoiava e tossiu algumas vezes, antes de se recusar a colocar o líquido para fora.

Impulsionou o corpo outra vez e colocou as mãos na escotilha, abrindo-a. Viu uma sala mais ampla, onde um computador de mesa repousava, além de cinco seres humanos, que flutuava pelo lugar. Não precisou se aproximar demais para perceber que estavam todos mortos. Dos alto falantes no computador, pode ouvir uma mensagem que dizia:

— ISS, aqui é Houston. Responda. — Heron passeou pela sala, esbarrando num ou noutro cadáver, até chegar a outra janela. Viu o golfo do México, onde se aninhavam o Cabo Canaveral, na Flórida, e Houston, no Texas. Os maiores centros de comando espacial dos Estados Unidos. — ISS, responda. Perdemos contato há 2 horas. Podem nos informar o que está acontecendo? Bill, escute, coloque todos no Veículo de Retorno da Tripulação imediatamente. A Meteorologia não nos deixa enviar um veículo de resgate para Volta da Tripulação com Segurança Garantida — Heron voltou os olhos para a janela outra vez. Nuvens cinzentas se aproximavam da Flórida, vindas do oceano. Em poucas horas, engoliriam Cabo Canaveral, impedindo qualquer novo lançamento. Mas outra coisa chamou sua atenção.

Lá fora, um astronauta flutuava no infinito. Vestia um traje de Atividade Extraveicular e não era humano. Heron teve certeza disso, porque o homem caminhava pelo espaço, ignorando o fato de que não havia chão para pisar, nem gravidade para mantê-lo preso ao chão. Aquele era Saturday, o sétimo novo deus.

— O astronauta — ele repetiu o título que Monday havia dado ao outro deus.

“Se der o recado de Monday”, pensou, “logo estarei de volta à Terra”. Quase começou a bater no vidro para chamar a atenção deus, antes se dar conta de sua estupidez. No vácuo, o som não se propagava. Ele recuou, impulsionando os pés contra a parede. Mergulhou em volta dos cadáveres. “ISS, aqui é Houston, responda”, dizia a voz nos alto-falantes. “Que será que aconteceu com eles?”

Leu “Bill Fletcher” na camisa de um homem musculoso, de cabelos dourados e rosto sério. Heron fez uma careta, mas se forçou a examinar o astronauta. De longe, parecia um cadáver perfeito, sem sinais de luta ou ferimentos. Levou alguns instantes até que percebesse o material enegrecido que escorria do ouvido dele. Heron aproximou seu rosto. Cheirou o líquido e decidiu que não tinha cheiro de nada muito característico. Quase levou um dedo até a mancha negra, antes de se lembrar dos procedimentos de segurança biológica da Genesis Corp. Decidiu que já tinha ido longe demais ao cheirar a substância. “Talvez eu já esteja contaminado.” Balançou a cabeça, afastando a ideia.

Ele deixou a mancha negra de lado e levantou a camisa do homem em busca de outras evidências. Viu seu corpo coberto de hematomas. Enormes manchas roxas, que indicavam que o sangue lá dentro escapava dos vasos sanguíneos e invadia os tecidos mais superficiais. “Um sinal de que lutou antes de morrer?” Heron tocou o abdômen do homem. Já estava meio frio. Pelas informações que o Controle da Missão, em Houston, continuava a transmitir nos alto-falantes, deviam estar mortos há, no máximo, 2 horas.

De repente, sentiu algo se mexer. O abdômen do astronauta se retorcia e empurrava a mão do filho de Atena. Heron recuou, enojado. Não soube dizer se aqueles eram espasmos cadavéricos ou algo muito pior.

Ele se afastou um pouco e viu algo flutuar para fora da camisa de Bill Fletcher, escapando pela gola. Um cordão, Heron decidiu, antes de colocar suas mãos nele. Viu quatro contas bem antigas espalhadas pelo colar e reconheceu o símbolo do acampamento Meio-Sangue em uma delas. Devereaux recuou. Mergulhou pela sala outra vez, passeando pelos cadáveres, examinando-os. Havia os americanos Linda Johnson e Clark Friggins, além do russo chamado Iuri Ivanov e do japonês Hideki Mori. Cinco colares de contas. Cinco semideuses a bordo da Estação Espacial Internacional.

“ISS, aqui é Houston. Ainda sem comunicação. Tem alguém aí?”

Heron pairou pela sala de controle por uns instantes, pensando no que isso significava. Por que a NASA estava enviando semideuses para o espaço? Há quanto tempo isso vinha acontecendo?

Ele passou a mão pelos cabelos, que dançavam em volta de sua cabeça, sem rumo certo, sem gravidade que os puxassem para baixo. Apoiou os pés na parede e impulsionou seu corpo para fora da sala, por um corredor novo. Ali não havia luz ambiente. Apenas a penumbra causada pela iluminação da sala anterior. Ele flutuou pelos corredores sem rumo certo, até encontrar uma placa que indicava o laboratório da estação espacial. Flutuou para dentro. Ainda havia luz no lugar.

A cada nova missão espacial, inúmeras experiências eram enviadas para a Estação Espacial Internacional, fossem elas de iniciativa pública ou privada. No ambiente sem gravidade, as experiências assumiam novos parâmetros. Os fungos cresciam de forma tridimensional, os animais de laboratório se comportavam de forma diferente e os cristais orgânicos cresciam mais e melhor. O próprio Heron já havia assinado algumas solicitações da Corporação Genesis referentes ao envio de material para a espação espacial.

Sentiu sua cabeça girar, enquanto observava o laboratório. Não havia gravidade, de forma que não havia “em cima” ou “em baixo”. As mesas e equipamentos eram distribuídos de forma que todo o espaço fosse bem utilizado, mesmo aquele que Heron considerava ser o teto. Ele rodopiou um pouco pela sala, observando alguns dos experimentos. Numa caixa de luvas, os ratos brancos de laboratório ainda se moviam, alertas, agitados. Colidiam contra as paredes de acrílico da caixa. Heron afastou o olhar. Do outro lado da sala, outra caixa de luvas. Quebrada. O experimento teria sido exposto ao ambiente externo. Viu o líquido negro que escorria do ouvido de Bill Fletcher e que, agora, também escorria para fora da caixa.

Heron se aproximou de um dos computadores. Havia uma pasta em aberto que dizia:

Experimento #602 escreveu:
A substância se move livremente pela caixa de luvas. Assume sempre a forma de cubo gelatinoso, mesmo que seja capaz de se desfazer em uma gosma viscosa. Parece ter preferência por esse formato. Ainda é cedo para dizer que efeitos a gravidade e a ausência dela têm sobre o objeto em estudo.

De repente, tudo ficou escuro. A luz ambiente perdeu força e só era capaz de deixar o laboratório numa penumbra. As luzes de alerta amarelas, que brilhavam em alguns cantos, conseguiam fazer um trabalho melhor de iluminação. Heron se afastou do computador, dançando pela sala, enquanto procurava por uma lanterna ou luzes de apoio. “Essa estação espacial está morrendo”, pensou. “E eu morrerei com ela, se não sair logo daqui.”

Numa das gavetas espalhadas pela sala, encontrou uma lanterna e pilhas. Ele respirou fundo, enquanto acendia o feixe de luz e apontava o mesmo em direção à saída. Precisava chegar até Saturday, o único que seria capaz de mandá-lo de volta para casa.

Ele pegou impulso com os pés e mergulhou em direção ao corredor. No caminho à frente, viu que as luzes da sala de comando também perdiam força, deixando toda a estação numa escuridão tão sinistra quanto a que havia lá fora. Antes de chegar até a escotilha, no entanto, sentiu algo tocar seu pescoço. Era gelatinoso, frio. Heron levou a mão livre em direção à substância. Antes que chegasse até ela, no entanto, a pele já começava a ferver. A gelatina queimava, corroendo epiderme, derme e qualquer outro tecido que encontrasse. Ele gritou, em pânico, enquanto afastava a gelatina de seu corpo. Sentiu a mão que a tocou arder e trincou os dentes.

Heron apontou a lanterna em direção à escuridão do corredor. Era CAC#302. Um cubo de gosma gelatinosa escura que flutuava em direção ao semideus e que parecia ter crescido bastante desde a última vez em que esteve presa na pequena caixa de luvas. Tentáculos emergiam do corpo liso da criatura, em direção a Heron, mas recuaram quando a luz da lanterna os tocou.

— Puta que pariu! — Xingou, enquanto se afastava. Ele atravessou a escotilha em direção à sala de comando, abandonando a gosma. Sentiu seu corpo esbarrar num dos astronautas. Ele se voltou para o cadáver, para empurrá-lo. Antes que o fizesse, viu a massa de carne, sangue e vísceras que se espalhava pelo lugar. A pele de seus corpos parecia ter se desmanchado e o material interno agora escapava pelas brechas, formando grandes bolhas de material orgânico. Se Heron tivesse que chutar um diagnóstico, teria dito que a gosma havia entrado no corpo dos astronautas e corroído seus órgãos e tecidos de dentro para fora, como um parasita.

Heron sentiu a náusea voltar, o estômago se revirar e o suco gástrico ameaçar passagem pelo esôfago outra vez. Resistiu. Não tinha tempo para isso. A gosma se aproximava, atravessando a escotilha do corredor. Ele passou pelo campo minado de detritos humanos, em direção ao local para onde Monday o transportara. Abriu a escotilha do lado oposto e viu o módulo habitacional se revelar para ele. As camas se espalhavam por toda parte e os objetos pessoais dos astronautas flutuavam por ali, alheios à perseguição.

Heron virou o rosto e viu a criatura se aproximar pelo corredor. Ele adentrou o módulo, atravessando-o. Pegava impulso com os pés. A urgência dos movimentos fazia com que ele esbarrasse contra as paredes. Ele avançou um pouco mais e se viu diante de uma pequena sala com portas de vidro e uma escotilha que dava passagem para o infinito.

A câmara de ar era uma espécie de antessala. Era usada para que o astronauta passasse por uma despressurização controlada, antes de realizar qualquer Atividade Extraveicular. Heron viu um par de trajes no armário próximo. Pensou por um instante, antes de decidir o que deveria fazer. Ele apertou um dos botões na parede, que indicava a abertura das portas de vidro da câmara. Logo em seguida, largou a lanterna sob os cuidados da gravidade zero e se juntou aos trajes espaciais dentro do armário, escondendo-se.

Esperou a chegada da gosma. Quase conseguia ouvir os segundos passarem. Ou seriam aqueles os batimentos acelerados de seu coração? Viu a mancha escura se aproximar devagar. Seus tentáculos balançando no ar, em busca de sua presa. Heron colocou dois dedos da mão direita sobre a têmpora, enquanto estendia a mão esquerda para fora do armário. Concentrou-se na criatura, alheia ao que acontecia. No espaço, não havia gravidade. Não havia peso. Estabelecer uma conexão telecinésica com o oponente foi mais fácil do que nunca. Ele moveu a mão e viu a criatura acompanhar seu movimento. Arremessou a gosta para dentro da câmara de ar e saltou para fora do armário de trajes.

Na parede, ele pressionou o mesmo botão, fechando as portas de vidro.

A gosma se contorcia lá dentro, arremessando tentáculos em todas as direções. Heron não tinha certeza de que ela era inteligente. Mas, de algum jeito, a criatura sabia o que estava por vir.

O senhor Devereaux leu uma etiqueta na parede. “Válvula de equalização de pressão”. Decidiu pular essa etapa. De repente, apertou o botão vermelho e acionou a abertura da escotilha.

Houve um barulho, quase como um rugido, quando o ar da câmara escapou em direção ao vácuo.

No vácuo absoluto, o oxigênio de um astronauta é drenado para fora de seu corpo. Não demora para que ele perca a consciência. Mas é só após alguns minutos que os órgãos começam a falhar. Heron pensou nisso, enquanto via a gosma seguir em direção ao vácuo junto com o ar da câmara. Não sabia se aquela coisa possuía órgãos, um sistema respiratório ou até mesmo células. Ainda assim, a gosma flutuou por alguns segundos, inerte, antes de se desmanchar em um bilhão de fragmentos tão pequenos quanto grãos de areia, que se espalharam pela imensidão cor-de-piche.

Heron suspirou. Só então percebeu que estava segurando o ar até aquele momento. Tenso. Preocupado com o sucesso do plano. Ele pressionou o botão outra vez e fechou a escotilha.

Aproximou-se de uma janela e viu o astronauta, Saturday, lá fora. Observava a Terra, talvez imerso em algum pensamento.

Heron balançou a cabeça se odiando pelo que estava prestes a fazer.

×××

Depois de vestir uma Unidade de Mobilidade Extraveicular — um dos trajes no armário — e passar quatro longas horas no processo de despressurização, ele viu a escotilha se abrir outra vez, liberando sua passagem para fora da estação espacial. Dentro do traje, a pressão chegava a quase 4 psi. Para um astronauta, uma tarefa fácil. Para Heron, um sacrifício. O traje era pesado, rígido. Dificultava mesmo a mais simples locomoção. Isso sem levar em conta a roupa de refrigeração à água. Uma infinidade de tubos que cobriam seu corpo lá dentro, mantendo sua temperatura estável. Ele ignorou tudo isso quando pôs os pés para fora.

O universo era lindo.

A Terra e a Lua eram as únicas coisas que se via numa vastidão cor-de-piche. Silêncio absoluto. Nunca havia experimentado uma quietude como a do vácuo absoluto. Seu corpo flutuava, ligado apenas pelo cordão umbilical do traje, que o mantinha conectado à estação espacial.

Pensou em Elsie, nas estrelas e nas luzes artificiais que ofuscavam seu brilho.

Ele se agarrou às barras na parte externa da estação. Instinto. Temia cair em direção ao vazio infinito. Começou a manobrar pelo exterior, segurando-se às barras enquanto se aproximava de Saturday. Resistiu por mais alguns minutos, antes de decidir que, para chegar até o astronauta, precisaria soltar a estação espacial. Os dedos quase não obedeciam, quando ele se deixou cair em direção ao nada.

Ele apertou um botão na parte da frente do traje e dois pequenos jatos de ar escaparam da mochila em suas costas, empurrando-o em direção a Saturday. O Auxílio Simplificado para Resgate em AEV era, geralmente, usado pelos astronautas para retornar à base espacial caso seus cordões umbilicais se rompessem por qualquer motivo. Por um instante, Heron temeu que fosse precisar dele logo em breve. Mesmo assim, pressionou o botão outra vez, agarrando-se à certeza de que quando chegasse ao seu alvo, estaria de volta à Terra e os jatos já não lhe seriam úteis.

Mais uma lufada de ar foi o necessário para que Heron tocasse o ombro do novo deus. Saturday se agitou, virando em direção a ele. Silêncio. Heron franziu o cenho. O visor no capacete era opaco e seu interior era escuro. O filho de Atena sentiu um calafrio quando passou pela sua mente a ideia de que não havia ninguém dentro do traje.

Mas isso não era completamente verdade. Uma entidade habitava o interior daquela Unidade de Mobilidade Extraveicular. Talvez não fosse humana, muito menos humanoide. Mas existia.

Saturday balançou um braço e Heron precisou de um segundo para reconhecer que se tratava de um aceno. Ele acenou de volta, cada vez mais confuso. Depois do cumprimento, o deus agarrou o cordão umbilical de Devereaux e começou a atravessar o vácuo. Caminhava como se houvesse chão, ainda alheio ao fato de que não havia gravidade. Heron não conseguiu pensar em qualquer outra coisa além daquilo, enquanto era arrastado de volta à estação espacial.

Quando atravessaram a passagem da escotilha, ele pôde ver que as luzes de alerta já não brilhavam mais em amarelo. Assumiam uma vermelho-vivo. Um vermelho que transbordava urgência.

Heron fechou a escotilha manualmente e acionou a válvula na parede, iniciando a equalização de pressão. Alguns minutos depois, a porta de vidro se abriu e os dois saltaram para a câmara de equipamentos.

O semideus começou a se livrar do material pesado que cobria seu corpo. Os dedos e o pescoço ainda ardiam, de forma que ele tentava não roçar o material grosseiro nas partes machucadas. Saturday apenas o observava. Não parecia preocupado em sair de seu traje.

— Senhor — começou o homem. — Monday me enviou para buscá-lo. Quer reunir os sete deuses. — Não houve resposta.

Conversar com Saturday era uma tarefa difícil. A entidade dentro do traje não possuía boca, de forma que não conseguia traduzir seus pensamentos em palavras e sentenças. Assim, a única forma de se comunicar era transferindo seus pensamentos para o outro interlocutor. Não eram frases ou uma voz que falava dentro da cabeça, como numa telepatia. Eram ideias que ele tirava de si e transmitia para o próximo.

— Senhor? — Heron questionou, enquanto se livrava da roupa de resfriamento à água. — Essa estação espacial está comprometida. Não vou durar muito aqui. Podemos ir?

Não houve resposta. Só uma ideia que surgiu em sua mente, assegurando-o de que o deus o enviaria de volta para a Terra em segurança. Não precisou que ninguém o dissesse que o pensamento partira do deus. Era uma ideia que o confundia, mas que ele não tinha tempo para refletir sobre. Heron apanhou sua bermuda de moletom no armário de equipamentos e vestiu a peça de roupa, enquanto Saturday atravessava o caminho em direção ao módulo habitacional.

Ele seguiu o deus pelo labirinto de corredores, até que chegaram ao módulo do Veículo de Retorno da Tripulação, uma espécie de bote salva-vidas. Saturday arremessou um Traje de Lançamento e Entrada para o filho de Atena, adequado para a volta à Terra.

— Pra que é isso? — Antes de completar a pergunta, a resposta já inundava sua mente. Seria lançado de volta à Terra. — Por quê? Não pode me enviar magicamente de volta?

Heron vestiu o traje alaranjado, enquanto a resposta do deus assentava em sua cabeça. O futuro é uma grande encruzilhada. Um infinito de caminhos, um infinito de resultados em cada pequena ação. No momento, a ação que resultava em um melhor resultado, sabia o deus, era enviar Heron de volta à terra no bote salva-vidas.

O semideus não tinha certeza de que compreendia o que tudo isso significava. Sabia, no entanto, que as luzes de alerta vermelhas continuavam a piscar. Se o deus não pretendia enviá-lo para casa magicamente, sua única opção era seguir o plano dele.

— E como eu vou pilotar essa coisa? — Disse, irritado, flutuando em direção a um dos assentos. Viu um pequeno painel aninhado junto à grande janela na frente do veículo. A pergunta se dissipou outra vez em sua mente. O Veículo de Retorno da Tripulação agiria de forma completamente independente, numa espécie de piloto automático.

Heron balançou a cabeça negativamente, enquanto via Saturday mexer nos controles do painel. Não estava muito seguro de tudo aquilo. O pouco de confiança que lhe restava escapou quando viu o deus atravessar a passagem de volta à estação espacial.

— Não vai comigo? — As portas começaram a se fechar. Saturday tinha um compromisso com Monday. Ele acenou brevemente, antes de desaparecer atrás das portas.

“ISS, aqui é Houston.” O comunicador no painel cuspiu as palavras. “Recebemos dados de que foram iniciados os procedimentos para Volta da Tripulação com Segurança Garantida, assim como a sequência de separação do Veículo de Retorno. O que está acontecendo aí?”

Heron afivelou seu cinto de segurança, ignorando as palavras do Diretor de Voo. O veículo desacoplou da Estação Espacial Internacional, entrando em órbita própria. Geralmente, levaria quarenta minutos para que o veículo calculasse trajetória e alvo de aterrissagem. O processo, no entanto, foi ignorado. Uma consequência da interferência de Saturday.

“ISS, responda. Não foram completados os procedimentos adequados para retorno à Terra.”

— Que tranquilizador — ele sussurrou, mascarando o nervosismo com uma camada de acidez. A quem estava tentando enganar? Sua respiração tornou-se entrecortada e o coração bombeava sangue de forma acelerada para todo o coração. O veículo começou a queimar combustível, iniciando o retorno à Terra.

De repente, o bote salva-vidas começou a tremer. Movimentos fortes, abruptos, com os quais Heron não estava acostumado. Ele tentou se segurar nas laterais do banco. Antes que conseguisse, viu a vista escurecer, os pensamentos se anuviarem e a consciência se esvair.

A veículo continuou seu curso, independente do estado do semideus. Em condições normais, teria caído nas proximidades do golfo do México, onde Cabo Canaveral enfrentava uma terrível tempestade que teria dificultado o retorno à Terra. A interferência de Saturday fez com que a máquina ignorasse os cálculos de trajeto e o veículo caiu em um espaço entre as ilhas Bermudas, a Flórida e o Porto Rico. Um pedacinho de oceano Atlântico conhecido como Triângulo das Bermudas.

Os paraquedas se abriram antes do veículo tocar o oceano. Ondas gigantes balançaram o bote salva-vidas para um lado e para o outro. No interior, nenhum movimento, nenhum barulho.

Apenas silêncio.
                          
 
Heron Devereaux
                           
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